sábado, 11 de julho de 2009

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA BOA MORTE SERÁ REABERTA SÁBADO

A restauração da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte foi iniciada em 2006, consumiu R$ 6,5 milhões. A proposta da Arquidiocese é consolidar igreja como um espaço cultural da cidade, com atividades especiais todo mês.

Com participações previstas do governador José Serra e do Prefeito Gilberto Kassab, cerimônia de reabertura e benção serão realizadas neste sábado (11/7), às 19:30 horas.

O evento de reabertura, no sábado (11/7), conta com apresentação de um coral dos Arautos do Evangelho, aberto ao público.

Rito de dedicação da igreja, necessário em razão das intervenções realizadas, ocorrerá domingo (12/7) às 8:00 horas acelebração da missa. Igreja passa a funcionar 24 h e prestará atendimento à comunidade.

Com gestão cultural da Formarte e realização da Concrejato, restauração teve patrocínio dos bancos Santander, Safra, Bradesco e Itaú, do Grupo Votorantim e da Sabesp.

Teve o incentivo da Lei Rouanet, através do Ministério da Cultura e do Governo de Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura.

Tombada pelo Condephaat, é considerada a primeira igreja em São Paulo em que brancos e negros sentaram-se juntos.

Uma das poucas referências remanescentes do “barroco paulista”, será assumida pelos padres da aliança da misericórdia, que atuam com populações carentes.


CARDEAL ARCEBISPO DE SÃO PAULO REALIZA, NO DIA 11 DE JULHO,
REABERTURA DA IGREJA NOSSA SENHORA DA BOA MORTE PARA A CIDADE DE SÃO PAULO

Com gestão cultural da FormArte e realizada pela Concrejato, a restauração consumiu R$ 6,5 milhões em três anos com patrocínio dos bancos Santander, Safra, Bradesco e Itaú, do Grupo Votorantim e da Sabesp, além de recursos do Estado, através de sua Secretaria de Cultura

O Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo P. Scherer entrega o restauro e reabre, no dia 11 de julho, a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, do século XIX, que foi submetida a um dos mais significativos processos de recuperação do patrimônio histórico e religioso da cidade de São Paulo.

As obras do restauro da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, iniciadas em outubro de 2006 pela Concrejato, com gestão cultural da FormArte. A restauração do templo – considerado o primeiro em São Paulo em que brancos e negros sentaram-se juntos - exigiu R$ 5 milhões investidos pelos Bancos Santander, Safra, Bradesco e Itaú, pelo Grupo Votorantim e Sabesp. Teve o incentivo da Lei Rouanet, através do Ministério da Cultura e do Governo de Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura, que aportou recursos em convênio para preservação de bem tombado pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo -, assinado em 1974.

Localizada na Rua do Carmo, na região central de São Paulo, e hoje pintada em amarelo e branco, a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte é uma das poucas referências remanescentes colonial também conhecido como “barroco paulista”. Sua primeira missa foi celebrada em 15 de agosto de 1810, mas as obras só foram concluídas em meados do século 19.

Durante a cerimônia de reabertura, marcada para 11/7, às 16h, e que dá início as comemorações de bicentenário da igreja, será celebrada uma benção pelo Cardeal Arcebispo com as presenças confirmadas do governador José Serra, do prefeito Gilberto Kassab e de representantes dos patrocinadores. Após, a benção, o templo será aberto ao público e haverá uma apresentação de coral. A realização de missas, entretanto, só poderá ocorrer após o rito de dedicação, agendado para o dia seguinte (12/7), já que inúmeras intervenções foram feitas na edificação nos últimos três anos.
Com a reabertura, a igreja funcionará 24 horas e vai prestar também atendimento à comunidade da região. O templo será assumido pelos padres da Aliança da Misericórdia, fundada há 10 anos, e que atua com populações carentes. A proposta da Arquidiocese é transformar o espaço em um centro de espiritualidade, com leitura das escrituras e adoração perpétua durante à noite, além do trabalho para a caridade, e também em um espaço cultural, com atividades especiais todo mês.

Assinado pelo arquiteto Olympio Augusto Ribeiro, o projeto de restauração da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte - que dispõe de 25 ambientes, além dos da torre - destaca como ela era antes das diversas intervenções que ocorreram durante os anos: uma construção, em grande parte, da primeira década do século 19 em taipa de pilão e adobe e paredes divisórias mais antigas em pau-a-pique, reunindo a igreja, a antiga casa paroquial e construções anexas, entre as quais uma creche e uma lanchonete. Os pisos são em ladrilho hidráulico em grande parte do térreo – na capela-mor é de madeira, bem como no piso superior e no forro.

Ainda de acordo com o estudo de arquiteto restaurador, a igreja é um dos poucos remanescentes paulistanos da antiga vila de taipa e pertencia à Irmandade da Boa Morte, de homens pardos, que sobrevivia de doações dos que desejavam uma boa passagem para a vida eterna. Sua construção se deu ao longo de 70 anos. No início do restauro, segundo Ribeiro, a edificação encontrava-se “íntegra em suas principais características arquitetônicas e as obras incluíram o corpo da igreja, a antiga casa paroquial e o pátio”.


Para Maria Aparecida Souket Nasser, engenheira da Concrejato, a igreja, uma das poucas construções de taipa da cidade, estava bastante danificada. Dentre os principais problemas encontrados, destacam-se os telhados com distorções geométricas, curvaturas e telhas desalinhadas; frechais apodrecidos; terças nas mesmas condições com cupins; calhas deterioradas com oxidação; peças do beiral soltas e com rachaduras; paredes de taipa com infiltração; e as de adobe com estrutura danificada, entre outros.

As obras incluíram reforço estrutural do telhado, que tinha fungos e cupins, recuperação das paredes de taipa e adobe, recomposição dos pisos e forro. O revestimento externo foi inteiramente refeito com argamassa de cal, sem adição de cimento. Também foram eliminadas as intervenções inadequadas. Um conjunto da Cohab que nunca foi concluído e desabitado, colado a uma das paredes da igreja, foi derrubado, e a creche que funcionava em suas dependências foi transferida e o espaço foi transformado na casa paroquial.

O Memorial Descritivo da Obra ressalta que “uma das intervenções que mais comprometeram preservação da unidade da igreja diz respeito à remoção de parte do altar-mor para execução de sanitários em sua parte posterior”. Segundo Ribeiro, pesquisas demonstraram que a disposição original das imagens no nicho principal do altar-mor mantinha “o esquife de Nossa Senhora da Boa Morte em sua porção inferior e a imagem de Nossa Senhora da Assunção no topo dos degraus da assunção”, resgate efetuado no restauro.



A surpresa

Para a Maria Aparecida, a maior surpresa que a equipe de mais de 100 profissionais envolvidos no restauro encontrou foi o forro de madeira sobre o altar. Durante mais de 30 anos, ele ficou embalado - pintado na cor cinza ainda com a cabeça dos cravos - no coro da igreja, bem preservado, exceto as chamadas réguas centrais. Feita a avaliação das peças, descobriu-se uma faixa colorida. Após a decapagem das tábuas, surgiu uma pintura - não identificada, mas provavelmente de um artista da época do barroco - da coroação da Virgem, em que, entretanto, faltavam as partes centrais do rosto de Deus, de Jesus e da Virgem.

Segundo Maria Aparecida, a decisão sobre o que fazer com o forro “foi bastante difícil e envolveu os restauradores e os órgãos de preservação do patrimônio”. A escolha recaiu sobre refazer a pintura, por meio da técnica de pintura em pequenos traços, chamada de tracejado, em um tom pouco mais claro do que o original.

Outra escolha dos restauradores foi pela manutenção, em vários locais da igreja, de partes da parede não restauradas, para mostrar aos visitantes sua composição original. Isto pode ser visto, por exemplo, em uma parede da entrada lateral direita, na nave e no salão paroquial. Parte dos ladrilhos hidráulicos que hoje decoram o piso da igreja são originais e parte foi especialmente elaborada com o mesmo desenho.

Assinado por Carlos Bertolucci, o projeto iluminotécnico teve, de acordo com Maria Aparecida, o objetivo de “não chamar a atenção”. Ele desenhou luminárias especiais para a igreja para, apenas, “produzir luz”.

Imagens e bens móveis
Além dos aspectos arquitetônicos, o que mais chama a atenção e dá um caráter único à igreja é o conjunto de imagens sacras encontrado em seu interior, nos altares laterais e no altar principal. As peças foram restauradas pela Julio Moraes Conservação e Restauro, que também fez o restauro do forro do presbitério, assim como o altar-mór e os elementos dourados. A imaginária de altíssima qualidade, por sua diversidade, compreende exemplares elaborados em técnicas raras, como algumas feitas em papel e tecido, madeira e gesso. Foram restauradas 13 imagens sacras que chamam atenção não só pela beleza e diversidade das peças, mas também pela sua riqueza intrínseca, isto é, as tradições e toda a carga histórica. Há alguns dos chamados santos do pau-oco, que têm seu interior vazio e eram mais leves para carregar na procissão. Segundo as histórias populares, o interior oco das imagens era usado para ocultar objetos de valor ou pedras e metais preciosos, testemunhas de hábitos já desaparecidos e de uma sociedade já modificada. Há imagens de vestir com perucas e figurinos, e algumas são articuláveis.



A Igreja Nossa Senhora da Boa Morte conta com algumas imagens de rara beleza. Dentre elas, estão a imagem do Cristo Prisioneiro trazida do Pátio do Colégio, datada provavelmente do século 16; na entrada está Santo Expedito; nas paredes laterais, as imagens de Nossa Senhora das Dores, das Lágrimas e da Assunção, Mas, o que chama a atenção é a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, sendo uma devoção rara e inclusive mais conhecida como Nossa Senhora da Assunção, que vem do latim “Dormitio Mariae”.

A devoção à Santa
De acordo com estudos do arquiteto Olympio Augusto Ribeiro, a devoção à Nossa Senhora da Boa Morte chegou aos cristãos do Ocidente por meio da tradição do Oriente, sob o título “Dormição da Assunta”. Segundo ele, “a última metade do século V foi marcada pela propagação de uma literatura apócrifa” sobre a morte e assunção da Virgem. Estes escritos revelavam que a Virgem Maria teria entrado em “dormição”, isto é, “entrado no sono da morte rodeada pelos apóstolos. Seu corpo imaculado foi levado por eles a um sepulcro novo no Getsêmani. Três dias depois eles voltaram ao local e o encontraram vazio e com odor de flores. A mãe fora ‘assunta’, isto é, subira ao céu em corpo e alma”.



IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DA BOA MORTE FOI
CRIADA NO SÉCULO 18 E A IGREJA, EM AGOSTO DE 1810

Documentos disponíveis no Arquivo da Cúria e citados no Memorial Descritivo do restauro, elaborado pelo arquiteto Olympio Augusto Ribeiro, revelam que a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte foi criada em 1728. Em 1802, em requerimento a D. Mateus de Abreu Pereira, bispo de São Paulo, a Irmandade solicitou licença para construir uma “igreja no Páteo de São Gonçalo”. Mas, não se sabe a razão, a igreja acabou sendo edificada na Rua do Carmo. O templo foi inaugurado em 25 de agosto de 1810 e a primeira missa, realizada onze dias antes.

De lá para cá, ainda segundo os estudos de Ribeiro, a Igreja passou por várias intervenções. O registro mais antigo sobre ela foi feito em 1827, pelo viajante inglês Willian John Burchell – uma aquarela que destaca uma torre. Uma outra imagem, de 1862, do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, mostra a edificação vista da ladeira do Carmo, mas sem a torre. Na década de 1930, a Boa Morte, que passara a abrigar provisoriamente a comunidade sacramentina, teve seu altar alterado para adoração perpétua do Santíssimo Sacramento.

Os livros “Arquidiocese de São Paulo – Igreja Nossa Senhora da Boa Morte – Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte – Receitas e Despesas”, um do período 1821/1858 e o outro de 1906/1958, também citados por Ribeiro, mostram as intervenções realizadas na construção. “Rebocou a porta da sacristia” (1821); 4 dúzias de forro para o coro” (1827); “caixilho do nicho de Nossa Senhora” (1835); “reparos na igreja” (1908); “reforma da igreja” (1927); “pintura e reforma da capela mor” (1947); “colocação de vidros na frente da igreja’” (1958). Entre 1970 e 1974, sob orientação do Condephaat, foram feitas outras reformas e, nos primeiros anos de 1980, realizadas “reformas no telhado e forros e construídos os sanitários e anexos na área descoberta”.

Barroco paulista

A Igreja destaca-se pela sua singeleza, representante do barroco paulista, frequentada por negros e mulatos, erigida próxima ao local das execuções dos condenados na antiga Província de São Paulo, local das últimas orações e do velório dos condenados. Foi fundada pela Irmandade dos homens pardos de Nossa Senhora da Boa Morte, que significa, neste contexto, a população de mestiços. É considerada a primeira igreja de São Paulo em que brancos e negros sentaram-se juntos. Nas demais havia áreas distintas para cada raça.

“Uma boa morte” era o último pedido dos condenados, subindo da atual Várzea do Glicério pela Rua Tabatinguera, antes de serem enforcados no Largo da Forca, na Liberdade, que se situava junto à atual Igreja das Almas dos Enforcados. Seus parentes e amigos desciam pela atual Rua dos Estudantes para rezar por suas almas.

A edificação chama a atenção por sua simplicidade, diferente dos demais templos. É composta por três naves e dois pavimentos nas alas, com dois púlpitos, algumas tribunas e um coro na parte de cima, que faceiam a nave central, com pé-direito mais alto e um arco cruzeiro ao centro.
O frontispício da construção é feito em alvenaria, assim como sua única torre, que desabou e foi refeita - intervenções no projeto original que datam do início do século 20, data de referência a partir da qual parte o projeto de restauração. Também os ornatos e a douração no interior do templo são dessa época. Seguindo os conceitos mais atuais das intervenções de restauro, são deixados testemunhos das diversas camadas de tinta resultado das pinturas prospectadas.
“Há herança do Barroco Mineiro tanto na configuração do espaço, como nos entalhes em madeira, que são muito semelhantes aos encontrados lá. O jeito de fazer, porém, é diferente. É paulista”, diz Maria Aparecida. “Utilizava-se o que havia no local. Como não existia pedra, os materiais empregados foram terra e madeira. Este exemplar é muito interessante como referência de técnica construtiva.

Seu conceito de estrutura é bastante empírico, mas perfeito. Além das paredes em taipa e adobe, há duas ou três feitas de pau-a-pique, que servem como divisórias leves. Foram encontrados vários tipos de madeiras, muito provavelmente porque eram sobras de outras igrejas ou doações dos fiéis, o que comprova tratar-se de uma igreja dos pobres”, explica.




CERIMÔNIA DA DEDICAÇÃO SERÁ REALIZADA NO DOMINGO, DIA 12

Todas as intervenções realizadas na Igreja Nossa Senhora da Boa Morte exigem que o templo passe novamente pelo Ritual da Dedicação, agendado para o dia 12 de julho e que será realizado pelo Arcebispo Dom Odilo Scherer, a quem foi entregue o cuidado da igreja.

O Ritual diz que “convém, pois que, ao se erigir um edifício única e estavelmente destinado ao povo de Deus e à celebração das ações sagradas, seja esta igreja dedicada ao Senhor em rito solene, segundo antiquíssimo costume”.

A celebração da Eucaristia é o rito principal e o único indispensável para a dedicação da igreja. Mas, de acordo com a tradição, há uma prece de dedicação em que se afirma o propósito de dedicar para sempre a igreja ao Senhor e se implora sua benção. O rito inclui ainda a unção, incensação, revestimento e iluminação do altar, que se torna símbolo de Cristo. O incenso é queimado sobre o altar para simbolizar o sacrifício de Cristo. O revestimento indica que o altar cristão é “ara do sacrifício eucarístico e mesa do Senhor” e a iluminação lembra que “Cristo é a luz para a revelação dos povos”.

Uma vez preparado o altar, o bispo celebra a Eucaristia, parte indispensável e a mais antiga de todo o rito, pela qual “atinge-se a finalidade intencionada pela construção da igreja e do altar”.

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